Nickel Boys e Considerações sobre Racismo de Estado
O filme Nickel Boys é uma adaptação do livro homônimo de Colson Whitehead e nos transporta para a realidade brutal de um reformatório na Flórida, inspirado na Dozier School for Boys, instituição marcada por graves violações de direitos humanos, hoje fechada.
Ambientado nos anos 60, no auge das lutas pelos direitos civis nos Estados Unidos, o filme retrata as diversas formas de violência e resistência dentro e fora do reformatório. Perseguições e brutalidades moldam as trajetórias individuais, muitas delas interrompidas por injustiças e violações extremas, como tortura, assassinatos e desaparecimentos de jovens internos e de lideranças que lutavam do lado de fora. Enquanto o país concentrava seus esforços na corrida espacial, as contradições sociais e institucionais ficavam cada vez mais evidentes ao longo da história.
No Brasil, embora a proteção dos direitos de crianças e adolescentes tenha avançado ao longo das últimas décadas, a tortura nunca foi plenamente erradicada no sistema prisional e socioeducativo. A seletividade da violência segue operando nos territórios e instituições, especialmente contra jovens negros. O que deveria causar indignação e mobilização social muitas vezes é tratado com indiferença, revelando a naturalização da violência e das desigualdades. Como apontou Foucault ao discutir o conceito de racismo de Estado, certas populações são sistematicamente expostas à brutalidade sem que a sociedade se comova ou reaja.