· 4 min de leitura

De Perdoando Deus a Conclave, a importância do questionamento para a convivência humana

Em Perdoando Deus, de Clarice Lispector, um rato morto desencadeia uma série de reflexões que desafiam a existência da personagem. A banalidade do cotidiano, embelezada, transforma-se na brutalidade da realidade: complexa, incompreensível e feia. Já em Conclave, filme dirigido por Edward Berger, a história parte de um evento histórico e mundialmente importante — a morte do papa — para retratar o que há de mais terreno entre os pontífices. Apesar de partirem de lugares distintos, ambos levam a reflexões sobre temas humanos, políticos e sociais de formas semelhantes.

A personagem de Clarice lembra que a realidade é sempre intangível e complexa e nos atravessa com grosseria. Ao ser surpreendida por um rato morto na rua, enquanto caminhava distraída e livre, foi confrontada pela realidade. A partir dali, passou a reconhecer a grandeza do mundo e a complexidade da natureza humana: as incompreensões, o sangue por dentro de tudo. Não há soluções fáceis na realidade, nem verdades absolutas, seja sobre o mundo, seja sobre nós mesmos. Clarice aceita Deus a partir do momento em que se reconhece em sua complexidade e imperfeição, amando o que é e não o que gostaria que fosse.

Do mesmo modo, o cardeal Lomeli, responsável por conduzir o processo de escolha do novo papa, para além da doutrina da Igreja Católica, realiza uma série de questionamentos humanos. Ao duvidar da existência de Deus, ele expõe a necessidade da fé: se houvesse certeza, não haveria necessidade de ter fé. Por isso, a fé deve se manter sempre viva. Assim como a fé em Deus, deve-se carregar também a fé em nós mesmos, na nossa totalidade, compreendendo-nos a partir das nossas próprias incompreensões — que também são obra de Deus. “Eu sou como Deus me fez”, o que engloba os mistérios, diferenças, subjetividades e incertezas.

Por isso é tão importante se afastar das certezas e abrir caminhos para as perguntas. O maior pecado, aquele que deve ser mais temido que todos os outros, é a certeza, segundo o cardeal Lomeli. A certeza sobre o mundo e sobre nós mesmos é a “inimiga moral da tolerância”. A partir do momento que o eu, a experiência individual ou que se acredita se torna absoluto, nada do que diverge é aceito, é tolerável. Essa compreensão parte da premissa de que a realidade individual é absoluta e perfeita, espelha do seu criador, seja divina ou individual. Nega-se que a coisa em si, o absoluto, está além da experiência humana. O que se conhece é a realidade relativa ao sujeito cognoscente. O mundo percebido é aquele constituído pelo conhecimento limitado e mediado pelos seres humanos.

Essa percepção abre caminho para o que Herrera chama de práticas interculturais, que vão além das práticas que evocam universais abstratos ou concepções que supervalorizam os particularismos. Se na visão universalista falta contexto, na visão localista há um excesso de contexto. Ambas partem de um absoluto inexistente: a primeira, de uma medida universal abstrata que não existe; a segunda, de um local absoluto, negando que as culturas estão sempre mudando, sendo produto da contingência e da interação cultural. Para ele, nada é essencialmente puro, tudo está sempre relacionado. Aprendemos sobre nós mesmos, sobre o mundo e sobre direitos no contato com o outro.

Quando a Igreja Católica relativizou o uso do latim, abriu-se um novo mundo e novas interpretações. Certamente, isso gerou questionamentos, incompreensões e novos valores. Ao abrir-se para novas línguas, abriu-se também para novos mundos possíveis. Não por acaso, esse ato é atacado no filme por um dos cardeais extremistas. Nossa relação com o outro, diz Herrera, é a única coisa que nos torna idênticos.

Da convivência entre os indivíduos, surge a tensão entre o universal e o particular, evitando que ambos se tornem absolutos. A igualdade é o que permite que os indivíduos participem desse questionamento, buscando, por meio do diálogo, da confrontação, da convivência interpessoal e intercultural, universais provisórios e precários. Não se parte de universais; busca-se por eles.

Nesse espaço de disputa, complexo, imperfeito e muitas vezes incompreensível, são necessários papas, autoridades e pessoas que “pecam, pedem perdão e seguem em frente”, que aprendem ao se “contaminarem” pela alteridade. Trata-se de ações humanas: a faculdade de pedir perdão é uma experiência que se fundamenta no reconhecimento e na presença do outro. Não é apenas uma questão religiosa, mas uma expressão de grandeza política.

Para além das questões ligadas à Igreja Católica, ao pensar em um papa que peca, pede perdão e segue em frente, Conclave nos convida a refletir sobre empatia e tolerância, sobre o reconhecimento do respeito a dignidade humana independente dos seus atos. As questões internas da Igreja também são questões políticas e sociais que nos rodeiam.