Adolescência
Duas questões me marcaram ao assistir Adolescência, da Netflix: a individualização da dor dos pais diante de um problema que é também coletivo e a forma humana com que o acusado foi tratado, considerando todas as suas dimensões.
O primeiro ponto reflete um debate central sobre gênero, trabalho e família: o cuidado de uma criança não deve ser responsabilidade exclusiva dos pais. A sociedade que construímos molda as crianças e adolescentes do presente e do futuro.
Embora as relações familiares e íntimas sejam fundamentais para a autoconfiança e o desenvolvimento emocional, permitindo que o indivíduo construa segurança afetiva, confie em si mesmo e estabeleça relações saudáveis, o autorrespeito e a autoestima estão diretamente ligados à comunidade. Só podemos construir uma sociedade em que todos sejam respeitados e valorizados em sua individualidade se reconhecermos e garantirmos a pluralidade de identidades e formas de existência.
Não há como oferecer um ambiente saudável para o desenvolvimento dos jovens se apenas um tipo de trajetória ou forma de existência for valorizado. Quando reduzimos a valorização humana a ganhos econômicos e permitimos que laços sociais sejam rompidos por discursos que amplificam a violência, o ódio ao diferente e as desigualdades, comprometemos o próprio tecido social, além do autorrespeito e da autoestima de grupos e indivíduos.
O segundo ponto nos leva a refletir sobre a necessidade de garantir dignidade a todos, mesmo diante de crimes cruéis. Como já pontuei em outras ocasiões, violar a dignidade de um acusado não apenas extrapola a legalidade, mas também enfraquece o próprio sistema de segurança e justiça. Isso se torna ainda mais grave quando falamos de crianças e adolescentes, que ainda estão em processo de formação.
Respeitar os indivíduos como fins em si mesmos, e nunca apenas como meios, é a base para a construção de comunidades pautadas na valorização do ser humano, fortalecidas por laços de responsabilidade e comprometimento.