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A Garota da Agulha e a violência que atravessa o tempo

Muitos filmes indicados ao Oscar este ano abordam a experiência e vivências das mulheres, suas formas de resistência, cuidado e as relações de opressão que as atravessam.

Ainda Estou Aqui, Anora e A Substância tratam, cada um à sua maneira, de trabalho, economia do cuidado, relações familiares e sociais, além das múltiplas violações enfrentadas por mulheres em diferentes contextos.

Entre os indicados, um dos mais angustiantes e explicitamente violentos é A Garota da Agulha. Ambientado em Copenhague, no pós-Primeira Guerra e no processo de industrialização do país, o filme acompanha Karoline, uma operária que acredita ter perdido o marido na guerra e que, grávida de seu chefe e patrão, é demitida da fábrica onde trabalhava.

O filme escancara a brutalidade da falta de autonomia das mulheres sobre seus corpos, o desamparo social, a precarização do trabalho, as desigualdades de classe e os impactos da guerra. Expõe, também, a violência — social e intrafamiliar — gerada por estruturas econômicas e sociais profundamente desiguais.

Especialmente hoje, 8 de março, ele nos lembra que, em um mundo de desigualdades brutais, são as mulheres — junto de seus filhos e daqueles que elas cuidam — que sofrem as consequências mais desumanas. Sem políticas públicas, sem recursos, sem reconhecimento e sem redes de apoio, tornam-se corpos vulneráveis, passíveis de destruição, esquecimento e brutalidade.

Se, ao assistir ao filme, sentimos um nó no estômago ou falta de ar, basta abrir o jornal da semana para lembrar que essa história não pertence ao passado. A realidade sempre é mais cruel. E talvez essa seja a maior dor que carregamos e que os filmes, por vezes, nos obrigam a encarar.